sábado, 30 de outubro de 2010

OS CONTRIBUTOS DE HEIDEGGER E GADAMER PARA A HERMENÊUTICA FILOSÓFICA CONTEMPORANEA



RESUMO

Este trabalho pretende apresentar as contribuições de Heidegger e Gadamer para a hermenêutica filosófica contemporânea. Para tanto iremos discorrer acerca da definição de hermenêutica, seus pressupostos e seu campo de aplicabilidade. Mostraremos a importância da historicidade para a compreensão, a impossibilidade de nos despir das pré-compreensões, e como o conhecimento ocorre no círculo hermenêutico.


Palavras-chave: compreensão, historicidade, círculo hermenêutico, preconceitos, tradição


INTRODUÇÃO

Este trabalho pretende apresentar as contribuições de Heidegger e Gadamer para a hermenêutica filosófica contemporânea. O caráter hermenêutico é persistente na obra de Heidegger. Mostraremos que o filósofo ao tratar do problema ontológico volta-se para o método fenomenológico para estudar a presença cotidiana do homem no mundo, ele faz uma analise de hermenêutica do Dasein, fazendo a importante distinção de sua fenomenologia para a fenomenologia de Husserl. Outro aspecto importante discutido por Heidegger no âmbito da interpretação é a impossibilidade de uma interpretação sem pressupostos de algo previamente dado, ele evidencia a pré-compreensão e o círculo hermenêutico presente no processo do conhecimento. Gadamer associasse expressamente a Heidegger e aprofunda a teoria da experiência hermenêutica por ele esboçada em Ser e Tempo. Gadamer colocar a questão da compreensão ao todo da experiência humana do mundo e da práxis da vida. Sua pergunta principal é: como é possível a compreensão? Para ele essa pergunta antecede o próprio ato de compreender e todo comportamento metodológico das ciências. Este trabalho vem apresentar que Gadamer pretende precisamente mostrar que a constituição do sentido não é obra de uma subjetividade isolada e separada da história, mas só é explicável a partir de nossa pertença na tradição. Antes de passarmos por esses pontos descritos iremos discorrer acerca da definição de hermenêutica, seus pressupostos e seu campo de aplicabilidade. Mostraremos a importância da historicidade para a compreensão, a impossibilidade de nos despir das pré-compreensões, e como o conhecimento ocorre no círculo hermenêutico.


HERMENÊUTICA

A palavra hermenêutica deriva do grego hermenéuein, é o estudo dos princípios metodológicos de interpretação e de explicação, sendo que estas pressupõem o mundo da cultura, a história, as experiências do falante. Ela pode ser aplicada na teologia, na literatura, na filosofia e no direito. A hermenêutica filosófica é uma corrente contemporânea, surgida pela metade do século XX e caracterizada em grandes linhas pela idéia de que a verdade é consequência de uma interpretação. A hermenêutica trata do mundo como linguagem, o que significa dizer que o mundo só se manifesta para o sujeito através do sentido. Assim o ser humano só é racional por que seu acesso ao mundo se dá via sentido, via palavra, linguagem. No entanto, esse ser capaz de linguagem não é neutro, ele fala dentro de uma história, dentro de uma determinada cultura.
No âmbito hermenêutico quando falamos do ser, das coisas e de nós mesmos, estamos falando de realidades historicamente determinadas, de entidades que se desenvolve, mudam e terminam, o homem, por exemplo, não é uma realidade estável e definida, mas um esboço autobiográfico naquilo que tem sido até este momento ou que projeta ser. Quando procuramos compreender a realidade ou dizemos que uma coisa é, existe, fazemos referencia ao mutável, de tradição, narrações, e é esse conjunto que a hermenêutica dá o nome de ser. Para a hermenêutica o ser é linguagem e é tempo, fluxo do acontecer. A hermenêutica herda a tese heideggeriana, para a qual ser é evento, ou seja, o ser não é mais acontece, e o seu acontecer é um evento lingüístico.
Nós estamos imersos num fluxo de linguagem, num conjunto lingüístico-temporal, por isso, jamais encontramos as coisas de modo imediato, mas temos sempre um certo número de informações preliminares, preconceitos, e a linguagem determina o nosso juízo sobre a realidade. Heidegger em Ser e Tempo declara querer ocupar-se com o problema do ser, que é muito abrangente, vasto, mas se pensarmos sobre essa problemática perceberemos que já temos uma noção do que é o ser, já temos dele uma certa compreensão.
O ser-linguagem em que estamos imersos faz, que no compreender nós já sejamos sempre orientados por condicionamentos de tipo lingüístico-cultural. Há uma pré-compreensão das coisas, que antecipa o nosso conhecimento da realidade. Este pré-compreender por um lado põe em discussão a idéia de um conhecimento neutro e objetivo das coisas, por outro lado nos ajuda a conhecer a realidade.
Sendo assim, podemos concluir que compreendemos sempre qualquer coisa que já conheço, e também que, no ato em que formulo uma pergunta, prevejo qual poderá ser a resposta. Segundo o ponto de vista hermenêutico esta é uma circularidade natural do compreender, é uma oportunidade positiva. Interpretar significa mover-se nessa circularidade, referindo a nossa pré-compreensão das coisas a experiência efetiva. O circulo hermenêutico é assim o princípio fundamental da lógica da experiência hermenêutica e a diferência da lógica do conhecimento tradicional.



A CONTRIBUIÇÃO HEIDEGGERIANA PARA A HERMENÊUTICA


Em um conjunto de ensaios Heidegger discute o caráter persistentemente hermenêutico do seu próprio pensamento, no que respeita tanto ao primeiro como ao último Heidegger. A própria filosofia, segundo ele, é hermenêutica. O filósofo ao tratar do problema ontológico volta-se para o método fenomenológico para estudar a presença cotidiana do homem no mundo. Ele fez essa análise principalmente na obra Ser e Tempo e denomina essa analise de hermenêutica do Dasein. No entanto é preciso deixar claro a definição que Heidegger atribui a fenomenologia, é “deixar e fazer ver por si mesmo aquilo que se mostra, tal como se mostra a partir de si mesmo. É este o sentido formal da pesquisa que trás o nome de Fenomenologia” , Heidegger afirma também que “descrever o mundo fenomenologicamente significa: mostrar e fixar numa categoria conceitual o ser dos entes que simplesmente se dão dentro do mundo” .
Neste contexto, a hermenêutica não se refere à ciência ou as regras da interpretação textual, mas, antes a uma explicação fenomenológica da própria existência humana. A análise de Heidegger indicou que a interpretação e a compreensão são modos fundantes da existência humana. Ele apresenta com a hermenêutica do Dasein uma ontologia da compreensão; a sua investigação é de caráter hermenêutica, quer nos conteúdos quer no método. A hermenêutica é relacionada de uma só vez com as dimensões ontológicas da compreensão e simultaneamente com a fenomenologia específica de Heidegger.
Sabemos que o ser não é um fenômeno e sim algo indefinível, no entanto temos uma certa compreensão do que é a plenitude do ser, esta compreensão não é uma compreensão fixa, pois ela se forma historicamente. A ontologia tem que se tornar fenomenologia, ela tem que se voltar para o processo de compreensão e interpretação pelos quais as coisas aparecem, tem que descobrir o modo e a orientação da existência humana.
Em Heidegger a ontologia, enquanto fenomenologia do ser, deve tornar-se uma hermenêutica da existência, sendo um ato de interpretação que faz com que uma coisa saia de seu esconderijo, ele define a essência da hermenêutica como o poder ontológico de compreender e interpretar, o poder que torna possível a revelação do ser das coisas e do próprio ser do Dasein.
O conhecimento não pode conceber-se como algo metafísico, acima da existência sensível do homem, mas sim enquanto inseparável desta, ou seja, sem o mundo não há compreensão. O mundo é o campo onde a historicidade e a temporalidade do ser estão presentes, é o lugar em que o ser se traduz em significação, em compreensão e interpretação, é o campo do processo hermenêutico, processo pelo qual o ser se tematiza enquanto linguagem. Heidegger afirma que:
A compreensão do ser-no-mundo como estrutura essencial da pre-sença é que possibilita a visão penetrante da espacialidade existencial da pre-sença. É ela que impede a eliminação antecipada dessa estrutura. Essa eliminação prévia não é motivada ontologicamente mas metafisicamente, pela opinião ingênua de que primeiro o homem é uma coisa espiritual que, só então, transfere-se para o espaço.

Outro aspecto importante discutido por Heidegger no âmbito da interpretação é a impossibilidade de uma interpretação sem pressupostos de algo previamente dado. Ao abordarmos um texto, por exemplo, há uma razão pelo qual nos voltamos para este texto, alguma afinidade. Esses pressupostos muitas vezes passam despercebido, mas estão presentes em toda construção interpretativa feita pelo interprete.



A HERMENÊUTICA FILOSÓFICA DE GADAMER

Gadamer associasse expressamente a Heidegger e aprofunda a teoria da experiência hermenêutica por ele esboçada em Ser e Tempo. A contribuição de Gadamer para a hermenêutica contemporânea foi fundamentalmente importante, as teses essenciais da hermenêutica como filosofia foi por ele apresentada na sua obra mais importante Verdade e Método, de 1960.
A intenção de Gadamer não foi desenvolver uma doutrina da arte do compreender, nem tampouco de desenvolver um sistema de regras capaz de descrever o procedimento metodológico das ciências do espírito, mas sua intenção fundamental é filosófica: colocar a questão da compreensão ao todo da experiência humana do mundo e da práxis da vida. Sua pergunta principal é: como é possível a compreensão? Para Gadamer essa pergunta antecede o próprio ato de compreender e todo comportamento metodológico das ciências.
Sua preocupação é comparável a postura transcendental kantiana, só que Gadamer parte de Kant para ir além de Kant, na medida em que pretende precisamente mostrar que a constituição do sentido não é obra de uma subjetividade isolada e separada da história, mas só é explicável a partir de nossa pertença na tradição: o ser-ai não pode superar sua própria facticidade, daí sua vinculação a costumes e tradições que determinam sua experiência de mundo. É no horizonte da tradição de um todo de sentido que compreendemos qualquer coisa. A hermenêutica de Gadamer é conscientemente da finitude, o que significa para ele a demonstração de que nossa consciência é determinada pela história.
Para Gadamer o homem é o espírito mediador que faz falarem as coisas do mundo, mas este dar voz não é um constituir como no transcendentalismo kantiano. No mundo o homem é jogado, é constituído pelas verdades, o homem está a certo sentido a serviço das coisas, para que a coisa possa exprimir-se. Vemos assim invertida a posição do sujeito da metafísica e da ciência-técnica, não é o homem a dispor das coisas, mas são as coisas que dispõem dele.
O trabalho da interpretação, para Gadamer, interroga a experiência histórica. A teoria heideggeriana da pré-compreensão e do circulo hermenêutico serve a Gadamer sobretudo para tomar distância do objetivismo do historicismo, reconhecendo a historicidade do objeto histórico, relatividade, caráter móvel e contextual, mas deve-se também realçar a historicidade do sujeito da historiografia, pois também nós, como as coisas da história somos contextuais imutáveis, como diz Heidegger, ao qual segundo Gadamer, se deve a análise mais aprofundada do fenômeno da interpretação, somos sempre jogados num mundo de significados e valores, e por isso não somos neutras entidades avaliadoras da realidade. Gadamer afirma que:
Quem quiser compreender um texto, realiza sempre um projetar. Tão logo apareça um primeiro sentido no texto, o intérprete prelineia um sentido do todo. Naturalmente que o sentido somente se manifesta porque quem lê o texto lê a partir de determinadas perspectivas e na perspectiva de um sentido determinado. A compreensão do que está posto no texto consiste precisamente na elaboração desse projeto prévio, que, obviamente, tem que ir sendo constantemente revisado com base no que se dá conforme se avança na penetração de sentido.
Cada um vê um ato histórico sempre com base nos seus interesses e nas suas expectativas de sentido, interpretamos um fato também com base nisso, confirmando-o, modificando-o, integrando-o em novas aquisições, daí a circularidade do processo interpretativo.
Gadamer também analisa o conceito de tradição, percebe que nós estamos imersos na tradição, nos permitindo dialogar entre nós e o passado, por isso é impossível desprezá-la, mesmo a novidade, acontece sempre sobre um fundo de continuidade. Todo o trabalho de interpretação consiste num diálogo com a tradição e num processo de autocrítica, pondo ao mesmo tempo em obra os preconceitos. Círculo hermenêutico, preconceitos e tradição constituem o cerne, as condições preliminares do trabalho interpretativo.
A hermenêutica não considera possível fornecer uma visão do processo histórico na sua inteireza porque ser histórico significa não poder jamais resolver-se, o nosso opinar e pensar é historicamente determinado, transitório e relativo. Na perspectiva hermenêutica a filosofia pode pretender ser total como em Hegel , no entanto, somente pelo fato de não contituir-se jamais como saber completo, concluído. A hermenêutica é universal, precisamente enquanto não oferece soluções definitivas e a sua totalidade coincide com a abertura.


CONCLUSÃO

O caráter hermenêutico é persistente na obra de Heidegger, este faz uma analise hermenêutica do Dasein, fazendo a importante distinção de sua fenomenologia para a fenomenologia de Husserl. Outro aspecto importante discutido por Heidegger no âmbito da interpretação é a impossibilidade de uma interpretação sem pressupostos de algo previamente dado, ele evidencia a pré-compreensão e o círculo hermenêutico presente no processo do conhecimento. Gadamer parte da análise do ser-ai articulada por Heidegger, tematizando a compreensão como um constitutivo fundamental do ser histórico. Para gadamer, a analítica temporal do ser humano em Heidegger demonstrou convincentemente que a compreensão não é um modo de comportamento do sujeito, mas uma maneira de ser do ser-ai. Há hermenêutica porque o homem é hermenêutica, isto é, finito e histórico, e isso marca o todo de sua experiência de mundo. Portanto, para Gadamer é fundamental a análise da temporalidade, e ele procura a partir dela pensar a hermenêutica.


REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA

D´AGOSTINI, F. Hermenêutica In: Analíticos e Continentais. São Leopoldo: Editora Unisinos, 2003.
GADAMER, H. G. Os traços fundamentais de uma teoria da experiência hermenêutica In: Verdade e Método I: traços fundamentais de uma hermenêutica filosófica. Tradução de Flávio Paulo Meurer. Petrópolis: Vozes, 1997.
HEIDEGGER, Martin. A interpretação da pré-sença pela temporalidade e a explicação do tempo como horizonte trancendental da questão do ser In: Ser e tempo. Parte I, Tradução Márcia de Sá Cavalcante. Petrópolis: Vozes, 1997.
OLIVEIRA, M. A. Martin Heidegger: pragmática existencial In: Reviravolta Lingüístico-pragmática na filosofia contemporânea. São Paulo: Edições Loyola, 1996.
OLIVEIRA, M. A. H. G. Gadamer In: Reviravolta Lingüístico-pragmática na filosofia contemporânea. São Paulo: Edições Loyola, 1996.
PALMER, R. E. Hermenêutica. Tradução Maria Luisa Ribeiro Ferreira. Lisboa: Edições 70, 1969.

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